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FBI mira nas universidades num novo esquema para recrutar informantes

Por Joanne Laurier
3 de julio de 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 23 de junho de 2007.

O FBI (Federal Bureau of Investigation) visitou recentemente um número de universidades na Nova Inglaterra com o objetivo de procurar estudantes universitários, funcionários e professores que pudessem se tornar informantes da agência nacional de polícia. O argumento do FBI para essa iniciativa nas universidades é a ameaça trazida por espiões estrangeiros e terroristas que roubam pesquisas de fundamental importância. Eles fornecem instruções sobre o que se chama "indicadores de espionagem", supostamente dirigidos a proteger as informações em questão.

"O que mais nos preocupa são aquelas pesquisas que não são classificadas e que estão sendo desenvolvidas pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), pela Worcester Polytech (Instituto Politécnico de Worcester) e outras universidades," disse Warren Bamford, agente especial responsável pelo escritório do FBI em Boston. O Amherst College e a Universidade de Massachussets também têm sido visitados pelo FBI. Outras instituições também estão na lista.

"É para garantir que estas instituições recebam treinamento...(sobre) o que os espiões procuram. Há centenas de projetos em andamento que poderiam despertar um interesse internacional," disse Bamford numa conversa com os editores do Boston Herald em 11 de junho.

O agente, que foi indicado para o escritório de Boston em janeiro, disse que o combate contra o terrorismo doméstico se tornará a "prioridade número um", afirmando, de maneira preocupante, que há hoje 250 casos de "terror" sendo investigados em Boston.

O tipo de perfil que o FBI tem em mente foi sugerido por Bamford: "poderia ser (investigado) um número de telefone de alguma caverna no Afeganistão completamente inocente ou poderia ser alguma outra coisa. O problema é que nós não podemos nos dar o luxo de dizer ‘provavelmente não é nada'".

Os "indicadores de espionagem" podem muito bem incluir perguntas nada usuais, particularmente quando se tratar de estudantes estrangeiros. Em 19 de junho, Melissa Goodman, da União Civil Americana das Liberdades (ACLU - American Civil Liberties Union) da Divisão Nacional de Segurança, perguntou, na seção do jornal da CNN que tratava do empenho do FBI nas universidades: "se você soubesse que o FBI está treinando seus professores ou seus colegas para investigarem comportamentos suspeitos, você não pensaria duas vezes antes de fazer uma pergunta específica?"

O WSWS falou com Chris Ott, Administrador de Comunicação da ACLU de Massachussets : "meu entendimento é que aquilo que o FBI está propondo não é ilegal, mas levanta questões sobre o endurecimento no que diz respeito à academia. Qual o significado disso quanto à liberdade de procurar uma informação? As pessoas no campus terão medo de fazer perguntas ou de desenvolver investigações em determinadas áreas, como por exemplo, a energia nuclear".

"O FBI está querendo que os funcionários, o corpo docente e os estudantes criem uma espécie de guarda contra qualquer coisa que possa ser considerada ‘suspeita.' Que tipo de coisas devem ser informadas? Quem tem o direito de denunciar? Uma das coisas mais assustadoras é quem (nas universidades) assumirá a responsabilidade de expulsar os espiões?"

Ao contatar o FBI em Boston, foi dito ao WSWS que o programa não é novo, que ele apenas tem recebido maior publicidade recentemente, pois Bamford, como novo nomeado para a área, está promovendo-o agressivamente. Gail Marcinkiewicz, do escritório de Boston, disse que o FBI acompanha o encontro editorial do Boston Globe uma vez por ano. O Globe, junto com o Herald, desmentiram a história.

A agente assistente especial em exercício e encarregada da seção da contra-inteligência do FBI em Boston, Lucia Ziobro, afirmou à imprensa que o objetivo do programa é "avançar na área da contra-proliferação e espionagem". Entretanto, o fato das universidades serem consideradas os focos principais para o FBI tem muito mais a ver com as divergências políticas que estão emergindo do que com a guerra tecnológica mundial ou com o anti-terrorismo.

A investida do FBI nas universidades que está em curso atualmente foi iniciada em setembro de 2005 com a criação do Quadro Consultivo de Segurança Nacional da Educação Superior, composto por 17 membros com o objetivo de "aconselhar sobre a cultura na educação superior... e estabelecer linhas de comunicação sobre as prioridades nacionais relacionadas com o terrorismo, a contra-inteligência, e a segurança da nação".

Graham Spanier, presidente da Universidade do Estado da Pensilvânia, foi eleito presidente do quadro consultivo. Outros altos executivos das mais importantes universidades também compõem o quadro, como William Brody, presidente da John Hopkins; Albert Carnesale, chanceler da UCLA; Jared Cohon, presidente da Universidade de Carnegie Mellon; Amy Gutmann, presidente da Universidade da Pensilvânia; e Susan Hockfield, presidente do MIT. De acordo com o FBI, "eles apenas auxiliarão no desenvolvimento da pesquisa, programas de graduação, trabalhos de curso, internatos, oportunidades para graduados e na consulta de oportunidades para o corpo docente relacionado à segurança nacional".

O quadro é uma das duas linhas de ataque na "Aliança Acadêmica" do FBI, cuja descrição no site do FBI começa com a pergunta: "como poderiam os terroristas, espiões, e criminosos ameaçar a segurança nacional tirando vantagem das atividades e da abertura das universidades Americanas?"

"Considerem as possibilidades: espiões estrangeiros — se colocando como estudantes estrangeiros ou visitantes — tentando roubar pesquisas de caráter delicado e secreto e minando as políticas de exportação de tecnologia e controles; os terroristas e criminosos estudando tecnologias avançadas e para usar contra os EUA; extremistas violentos usando vistos de estudante para entrar sem ser detectados no país; e hackers atacando as redes de computadores das universidades e possivelmente roubando segredos, pesquisas e identidades". Nenhum exemplo é apresentado para amainar o temor existente.

A segunda frente da "Aliança Acadêmica" é o Esforço para a Segurança das Universidades e Faculdades (CAUSE — College and University Security Effort). "Através do CAUSE, os agentes especiais do FBI se reúnem com os responsáveis das faculdades locais para discutir a segurança nacional... pois alguns governos estrangeiros devem estar tentando espionar pesquisas e novas criações".

O FBI tem uma longa e notável experiência, que é recorde na espionagem, provocação e, quando necessário, violência contra oposições políticas. As advertências sobre "espiões estrangeiros" e o recrutamento de informantes nas universidades e faculdades não é algo novo. Ambos iniciaram durante o período do Macartismo anti-comunista da caça às bruxas. É vergonhoso, embora não seja nem um pouco surpreendente, que os administradores das universidades aceitem tão facilmente a espionagem do FBI, e sejam tão ingênuos, na melhor das hipóteses, a respeito das intenções da agência de polícia.

De acordo com o Boston Globe, Denis D. Berkey, presidente do Instituto Politécnico de Worcester (WPI — Worcester Polytechnic Institute), apoiou a intervenção do FBI. O jornal afirmou que "ele disse que era útil abrir linhas de comunicação, embora não acreditasse que o FBI fosse treinar o corpo docente e funcionários do WPI, pois a universidade já tem bastante experiência em proteger suas pesquisas. No entanto, ele elogiou o interesse do FBI".

"‘Eu penso que no momento que estamos vivendo, nós devemos estar mais atentos sobre o que está acontecendo a nossa volta, no geral,' disse ele".

A "Aliança Acadêmica" do FBI é a expressão de uma grande investida de várias agências de inteligência com o objetivo de monitorar, controlar e também recrutar informantes nas universidades e faculdades dos EUA.

Em novembro de 2006, um artigo do US Today dava uma idéia da penetração da inteligência norte-americana nas comunidades de educação superior, o que envolve milhões de dólares na operação, "ao pagar cursos relacionados à inteligência e bolsas de estudos para centenas de estudantes em pelo menos uma dúzia de universidades".

O artigo observava que em 2006, o Gabinete do Diretor da Inteligência Nacional (ODNI- Office of the Director of National Intelligence), um órgão criado recentemente com o objetivo de dirigir as operações de espionagem nos EUA, mais do que dobrou o número de escolas incluídas no programa. O ODNI é o principal conselheiro da inteligência ligado diretamente ao presidente, ao Conselho Nacional de Segurança e ao Conselho Consultivo de Segurança. Ele também supervisiona e dirige o Programa de Inteligência Nacional.

Segundo o USA Today, "as agências patrocinadoras, incluindo a CIA, afirmam que os programas (nas universidades) ajudam a arregimentar recrutas suficientemente qualificados para travar a guerra contra o terrorismo," confirmando que os programas começaram em 2004. "As agências também pagam internatos e ‘acampamentos de espionagem' de verão, direcionados a atrair estudantes secundaristas para estudar inteligência".

O artigo compara estes projetos com outros similares da década de 1950, quando o FBI "encorajou, algumas vezes, estudantes a dar informações a respeito de professores de matérias relacionadas à política, e na década de 1960, quando a CIA pagou para a Associação Nacional dos Estudantes e fez gravações de seus membros para o serviço de inteligência". Naqueles anos, membros do corpo docente das universidades de elite, tais como Yale, Harvard e MIT, "serviram como observadores talentosos, direcionando estudantes potenciais para a carreira na inteligência."

David Price, um professor de antropologia na Universidade de St. Martin, em Spokane, Washington, mencionado pelo USA Today, pesquisou sobre a vigilância do FBI na academia na década de 1950. Ele disse ao jornal: "eu tenho lido bastante vários documentos antigos do FBI para me conformar com a idéia" destas agências financiando estudantes.

 



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